domingo, 8 de março de 2020

As histórias (e os mitos) sobre o Dia Internacional da Mulher

A origem mais difundida da comemoração é um incêndio em uma fábrica em Nova York. Mas as socialistas russas também disputam a narrativa


Afinal, o 8 de março nasceu em Nova York ou São Petersburgo? Na foto, mulheres grevistas nos Estados Unidos (esq.) e na Rússia no início do século XX

A cada ano, uma velha história é contada com ares míticos: no dia 8 de março de 1908 um terrível incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York consumiu a vida de mais uma centena de trabalhadoras grevistas, que, ao demandarem melhores condições de trabalho, teriam sido trancadas no sufocante ambiente pelo próprio patrão, que as deixou queimar.

A comoção e a revolta subsequente teriam levado à consagração da data como um dia para lutar pelos direitos da mulher no mundo todo, inclusive emprestando a cor do uniforme das trabalhadoras para alçar o púrpura como o tom feminista por excelência.

O problema é que a história não aconteceu bem assim, como explica a historiadora espanhola Ana Isabel Álvarez González no livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, publicado em 2010 no Brasil pela editora Expressão Popular. Na verdade, a origem da data passa pelos Estados Unidos, mas também pela Rússia soviética.

                            

Segundo a autora, que buscou fontes primárias tanto na historiografia americana quanto na espanhola, o incêndio realmente ocorreu e matou 146 mulheres trabalhadoras, mas em 25 de março 1911, e não no dia 8. De toda forma, defende ela, o incêndio foi muito significativo para o movimento operário americano e para o feminista, mas, sozinho, não explica a determinação de uma data para o Dia Internacional da Mulher.

A primeira pista de que a história não foi bem essa é a data escolhida: 8 de março de 1911 foi um domingo, data improvável para a deflagração de uma greve, uma vez que não causaria grandes prejuízos aos donos da fábrica. Além disso, incêndios desse tipo não eram incomuns à época. Também não há registros sobre a cor da roupa das funcionárias, que dificilmente usariam uniformes padronizados. 


Ao mesmo tempo, outro acontecimento envolvendo mulheres grevistas emergiu neste mesmo dia do mês: em 8 de março de 1917, as tecelãs de São Petersburgo fizeram um grande protesto, evento considerado o pontapé inicial da Revolução Russa.

Ambas as histórias e suas respectivas disputas mesclaram-se ao longo do tempo, culminando com a institucionalização do 8 de março como feriado internacional pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975.

As trabalhadoras e o incêndio em Nova York




Mas como um incêndio em Nova York passou a ser associado com o Dia Internacional da Mulher?





O incêndio no prédio da Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911, chocou pela brutalidade e o número elevado de vítimas (146), em sua maioria mulheres jovens e imigrantes, oriundas da Itália ou do Leste Europeu.

Rosey Safran, uma das sobreviventes, detalhou como a tragédia transcorreu ao jornal The Independent: "Eu, junto com outras moças, estava no vestiário do oitavo andar do Asch Building, na Washington Place, às 4h40 em ponto, da tarde de sábado, 25 de março, quando ouvi alguém gritar “Fogo!”. Larguei tudo e corri para a porta que dá para Washington Place".

A porta, porém, estava fechada. "As meninas se amontoavam atrás dela. Eles (os chefes) mantinham todas as portas fechadas a chave, o tempo todo, por medo de que as meninas roubassem alguma coisa. Algumas estavam gritando, outras esmurrando a porta com os punhos, outros tentando derrubá-la. Não posso descrever como me sentia enquanto estava lá (na rua) olhando. Eu podia ver as pessoas, mas não seus rostos. Esperávamos que as redes dos bombeiros pudessem salvar alguém, mas elas não eram boas o suficiente para alguém que saltava de tão alto", lembrou ela.

Apesar de concluir-se que o incêndio não foi provocado intencionalmente - provavelmente alguém jogou um fósforo mal-apagado em uma pilha de tecidos, que inflamou-se rapidamente - o grande saldo de mortes, associado à cenas dantescas de pessoas jogando-se em chamas do edifício, gerou comoção pública e motivou protestos com milhares de pessoas.

Os donos da Triangle, porém, não foram condenados pelo júri, uma vez que não foi possível determinar que a porta do nono andar (onde morreram a maioria das vítimas) estava trancada por ordem expressa do patronato.

Além do incêndio escancarar as péssimas condições de trabalho enfrentadas pelas jovens imigrantes, parte do choque pode ser explicado pelo fato de que, um ano antes do incêndio, foram as trabalhadoras têxteis da Triangle que deflagraram e lideraram um movimento grevista que durou 13 semanas, entre novembro de 1909 e fevereiro de 1910.

Conhecida como "O levante dos 30 mil", a paralisação no setor têxtil liderada por mulheres foi a mais importante realizada até aquele momento, um prenúncio da ebulição política do momento.

Maioria da força de trabalho do setor têxtil era feminina e imigrante

Há poucos meses, o Partido Socialista Americano havia passado a apoiar o direito das mulheres ao voto. Em 28 de fevereiro de 1909, as socialistas americanas estabeleceram o Woman's Day, a ser comemorado ao final de fevereiro.

No Woman's Day de 1910, cerca de 3 mil mulheres reuniram-se em protesto no Carnegie Hall, em Nova York. Entre elas, as grevistas das fábricas têxteis, que haviam encerrado a histórica paralisação poucos dias antes.

 




As mulheres socialistas e a Revolução Russa

A outra parte da história do Dia Internacional da Mulher iniciou-se em Copenhague, na Dinamarca, em agosto de 1910. Transcorria a Segunda Conferência internacional das mulheres socialistas quando Clara Zetkin propôs a criação de uma jornada anual de protestos em prol dos direitos das mulheres, mas sem fixar uma data específica. A primeira comemoração oficial deu-se em 19 de março de 1911.

No entanto, logo uma outra data em março tornaria-se ainda mais importante.

Em 8 de março de 1917 (ou 23 de fevereiro no calendário gregoriano), descreve a teórica marxista Alexandra Kollontai, as mulheres saíram corajosamente em protesto às ruas de Petrogrado (então São Petersburgo).
Eram também trabalhadoras do setor têxtil, além de mães e esposas de soldados deslocados para os esforços da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que, pressionadas pelos altos preços e pela escassez de comida, exigiam pão para os filhos e a volta dos soldados russos.

Nesse dia, conta Kollontai, até mesmo as forças de segurança do Czar titubearam diante do "mar turbulento da ira do povo". Para ela, as russas "ergueram a tocha da revolução e incendiaram todo o mundo". Foi o estopim do processo que culminaria na Revolução Russa. Além disso, as russas conquistaram o direito ao voto, as condições para o divórcio foram facilitadas e criou-se creches e refeitórios públicos para mitigar o peso do trabalho doméstico. A legalização do aborto, reivindicação presente até hoje em muitos países, foi obtida em 1920.

Após a vitória dos bolcheviques, a data foi incluída oficialmente no calendário soviético, mas ficou basicamente restrita aos países socialistas até 1975, quando, por sugestão da ONU, os protestos e comemorações pelos direitos das mulheres no mundo todo passaram a se concentrar no dia 8 de março.

por Tory Oliveira PUBLICADO NO SITE: CARTA CAPITAL

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

HOJE NA HISTÓRIA - 61 anos da Revolução Cubana




TRIUNFO DA REVOLUÇÃO CUBANA (1º de Janeiro de 1959)

Sob a liderança de Fidel Castro, organizados no Movimento 26 de Julho, o Exército Rebelde e outras forças políticas (operários, trabalhadores rurais e estudantes) se levantam contra a ditadura de Fulgêncio Batista, sustentado no poder pelos Estados Unidos. No dia 1º de Janeiro de 1959 tomam o poder em Cuba. Nessa Revolução participaram com destaque, Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul Castro, Haidé Santamaria e Célia Sanches, além da grande massa de trabalhadores explorados.

Primeiras Medidas tomadas pelo povo no poder:
1º) Reforma Agrária;
2º) Emprego e trabalho para todos;
3º) Educação gratuita para todos;
4º) Assistência médica gratuita para todos;
5º) Ninguém pagará de aluguel mais de 5% do seu salário.

A Revolução Cubana deu um susto muito grande na burguesia de todo o continente americano. E até hoje, é exemplo a ser seguido pelos revolucionários de todo o mundo.
Cuba é um país livre!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

A História da Páscoa



Muito antes de ser considerada a festa da ressurreição de Cristo, a Páscoa anunciava o fim do inverno e a chegada da primavera. A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luzes, isto muito antes de ser considerada uma das principais festas da cristandade. A palavra “páscoa” – do hebreu “peschad”, em grego “paskha” e latim “pache” – significa “passagem”, uma transição anunciada pelo equinócio de primavera (ou vernal), que no hemisfério norte ocorre a 20 ou 21 de março e, no sul, em 22 ou 23 de setembro.
A páscoa judaica (em hebraico פסח, ou seja, passagem) é o nome do sacríficio executado em 14 deNissan segundo o calendário judaico e que precede a Festa dos Pães Ázimos (Chag haMatzot). Geralmente o nome Pessach é associado a esta festa também, que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Êxodo.
A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, mas tem um significado diferente. Enquanto para o Judaísmo, Pessach representa a libertação do povo de Israel no Egito, no Cristianismo a Páscoa representa a morte e ressurreição de Jesus (que aconteceu na Pessach) e de que a Páscoa Judaica é considerada prefiguração, pois em ambos os casos se celebra uma “libertação do povo de Deus”, a sua passagem da escravidão (do Egito/do pecado) para a liberdade.
De fato, para entender o significado da Páscoa cristã, é necessário voltar para a Idade Média e lembrar dos antigos povos pagãos europeus que, nesta época do ano, homenageavam Ostera, ou Esther – em inglês, Easter quer dizer Páscoa.
Ostera (ou Ostara) é a Deusa da Primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostara equivale, na mitologia grega, a Persephone. Na mitologia romana, é Ceres.
Estes antigos povos pagãos comemoravam a chegada da primavera decorando ovos. O próprio costume de decorá-los para dar de presente na Páscoa surgiu na Inglaterra, no século X, durante o reinado de Eduardo I (900-924), o qual tinha o hábito de banhar ovos em ouro e ofertá-los para os seus amigos e aliados.
Por que o ovo de Páscoa?
O ovo é um destes símbolos que praticamente explica-se por si mesmo. Ele contém o germe, o fruto da vida, que representa o nascimento, o renascimento, a renovação e a criação cíclica. De um modo simples, podemos dizer que é o símbolo da vida.
Os celtas, gregos, egípcios, fenícios, chineses e muitas outras civilizações acreditavam que o mundo havia nascido de um ovo. Na maioria das tradições, este “ovo cósmico” aparece depois de um período de caos.
Na Índia, por exemplo, acredita-se que uma gansa de nome Hamsa (um espírito considerado o “Sopro divino”), chocou o ovo cósmico na superfície de águas primordiais e, daí, dividido em duas partes, o ovo deu origem ao Céu e a Terra – simbolicamente é possível ver o Céu como a parte leve do ovo, a clara, e a Terra como outra mais densa, a gema.
O mito do ovo cósmico aparece também nas tradições chinesas. Antes do surgimento do mundo, quando tudo ainda era caos, um ovo semelhante ao de galinha se abriu e, de seus elementos pesados, surgiu a Terra (Yin) e, de sua parte leve e pura, nasceu o céu (Yang).
Para os celtas, o ovo cósmico é assimilado a um ovo de serpente. Para eles, o ovo contém a representação do Universo: a gema representa o globo terrestre, a clara o firmamento e a atmosfera, a casca equivale à esfera celeste e aos astros.
Na tradição cristã, o ovo aparece como uma renovação periódica da natureza. Trata-se do mito da criação cíclica. Em muitos países europeus, ainda hoje há a crença de que comer ovos no Domingo de Páscoa traz saúde e sorte durante todo o resto do ano. E mais: um ovo posto na sexta-feira santa afasta as doenças.
Por que o Coelho de Páscoa?
Coelhos não colocam ovos, isto é fato! A tradição do Coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. O coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa.
Uma outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. A mais pura verdade, alguém duvida?
No antigo Egito, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. Alguns povos da Antigüidade o consideravam o símbolo da Lua. É possível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao fato de a Lua determinar a data da Páscoa.
Mas o certo mesmo é que a origem da imagem do coelho na Páscoa está na fertililidade que os coelhos possuem. Geram grandes ninhadas! Assim, os coelhos são vistos como símbolos de renovação e início de uma nova vida. Em união com o mito dos Ovos de Páscoa, o Coelho da Páscoa representa a renovação de uma vida que trará boas novas e novos e melhores dias, segundo as tradições.
Outros símbolos da Páscoa
O cordeiro é um dos principais símbolos de Jesus Cristo, já que é considerado como tendo sido um sacrifício em favor do seu rebanho. Segundo o Novo Testamento, Jesus Cristo é “sacrificado” durante a Páscoa (judaica, obviamente). Isso pode ser visto como uma profecia de João Batista, no Evangelho segundo João no capítulo 1, versículo 29: “Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”.
Paulo de Tarso (na primeira epístola a Coríntio no capítulo 5, versículo 7) diz: “Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.“
Jesus, desse modo, é tido pelos cristãos como o Cordeiro de Deus (em latim: Agnus Dei) que supostamente fora imolado para salvação e libertação de todos do pecado. Para isso, Deus teria designado sua morte exatamente no dia da Páscoa judaica para criar o paralelo entre a aliança antiga, no sangue do cordeiro imolado, e a nova aliança, no sangue do próprio Jesus imolado. Assim, a partir daquela data, o Pecado Original tecnicamente deixara de existir.
A Cruz também é tida como um símbolo pascal. Ela mistifica todo o significado da Páscoa, na ressurreição e também no sofrimento de Jesus. No Concílio de Nicea em 325 d.C, Constantino decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo. Então, ela não somente é um símbolo da Páscoa, mas o símbolo primordial da fé católica.
O pão e o vinho simbolizam a vida eterna, o corpo e o sangue de Jesus, oferecido aos seus discípulos, conforme é dito no capítulo 26 do Evangelho segundo Mateus, nos versículos 26 a 28: “Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.“
Por que a Páscoa nunca cai no mesmo dia todos os anos?
O dia da Páscoa é o primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre no dia ou depois de 21 março (a data do equinócio). Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas. (A igreja, para obter consistência na data da Páscoa decidiu, no Concílio de Nicea em 325 d.C, definir a Páscoa relacionada a uma Lua imaginária – conhecida como a “lua eclesiástica”).
A Quarta-Feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa, e portanto a Terça-Feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa. Esse é o período da quaresma, que começa na quarta-feira de cinzas.
Com esta definição, a data da Páscoa pode ser determinada sem grande conhecimento astronômico. Mas a seqüência de datas varia de ano para ano, sendo no mínimo em 22 de março e no máximo em 24 de abril, transformando a Páscoa numa festa “móvel”. De fato, a seqüência exata de datas da Páscoa repete-se aproximadamente em 5.700.000 anos no nosso calendário Gregoriano.
Tabela com as datas da Páscoa até 2020
2014: 20 de Abril
2015: 5 de Abril (Igrejas Ocidentais); 12 de Abril (Igrejas Orientais)
2016: 27 de Março (Igrejas Ocidentais); 1 de Maio (Igrejas Orientais)
2017: 16 de Abril
2018: 1 de Abril (Igrejas Ocidentais); 8 de Abril (Igrejas Orientais)
2019: 21 de Abril (Igrejas Ocidentais); 28 de Abril (Igrejas Orientais)
2020: 12 de Abril (Igrejas Ocidentais); 19 de Abril (Igrejas Orientais)
No final das contas, a páscoa é mais um rito de povos antigos, assimilado pela Igreja Cristã de modo a impor sua influência. Substituindo venerações à natureza (como no caso da Lua ou do Equinócio, tipicamente pagãs) por uma outra figura da mitologia, tomando os siginificados do judaísmo, os símbolos celtas e fenícios, remodelando mediante os Evangelhos e dando uma decoração final, criou-se um “ritual colcha de retalhos”.

Reproduzido do site:  http://www.brasilcultura.com.br/cultura/a-verdadeira-historia-da-pascoa/

sexta-feira, 8 de março de 2019

As histórias (e os mitos) sobre o Dia Internacional da Mulher

A origem mais difundida da comemoração é um incêndio em uma fábrica em Nova York. Mas as socialistas russas também disputam a narrativa


Afinal, o 8 de março nasceu em Nova York ou São Petersburgo? Na foto, mulheres grevistas nos Estados Unidos (esq.) e na Rússia no início do século XX

A cada ano, uma velha história é contada com ares míticos: no dia 8 de março de 1908 um terrível incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York consumiu a vida de mais uma centena de trabalhadoras grevistas, que, ao demandarem melhores condições de trabalho, teriam sido trancadas no sufocante ambiente pelo próprio patrão, que as deixou queimar.

A comoção e a revolta subsequente teriam levado à consagração da data como um dia para lutar pelos direitos da mulher no mundo todo, inclusive emprestando a cor do uniforme das trabalhadoras para alçar o púrpura como o tom feminista por excelência.

O problema é que a história não aconteceu bem assim, como explica a historiadora espanhola Ana Isabel Álvarez González no livro As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, publicado em 2010 no Brasil pela editora Expressão Popular. Na verdade, a origem da data passa pelos Estados Unidos, mas também pela Rússia soviética.

                            

Segundo a autora, que buscou fontes primárias tanto na historiografia americana quanto na espanhola, o incêndio realmente ocorreu e matou 146 mulheres trabalhadoras, mas em 25 de março 1911, e não no dia 8. De toda forma, defende ela, o incêndio foi muito significativo para o movimento operário americano e para o feminista, mas, sozinho, não explica a determinação de uma data para o Dia Internacional da Mulher.

A primeira pista de que a história não foi bem essa é a data escolhida: 8 de março de 1911 foi um domingo, data improvável para a deflagração de uma greve, uma vez que não causaria grandes prejuízos aos donos da fábrica. Além disso, incêndios desse tipo não eram incomuns à época. Também não há registros sobre a cor da roupa das funcionárias, que dificilmente usariam uniformes padronizados. 


Ao mesmo tempo, outro acontecimento envolvendo mulheres grevistas emergiu neste mesmo dia do mês: em 8 de março de 1917, as tecelãs de São Petersburgo fizeram um grande protesto, evento considerado o pontapé inicial da Revolução Russa.

Ambas as histórias e suas respectivas disputas mesclaram-se ao longo do tempo, culminando com a institucionalização do 8 de março como feriado internacional pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975.

As trabalhadoras e o incêndio em Nova York




Mas como um incêndio em Nova York passou a ser associado com o Dia Internacional da Mulher?





O incêndio no prédio da Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911, chocou pela brutalidade e o número elevado de vítimas (146), em sua maioria mulheres jovens e imigrantes, oriundas da Itália ou do Leste Europeu.

Rosey Safran, uma das sobreviventes, detalhou como a tragédia transcorreu ao jornal The Independent: "Eu, junto com outras moças, estava no vestiário do oitavo andar do Asch Building, na Washington Place, às 4h40 em ponto, da tarde de sábado, 25 de março, quando ouvi alguém gritar “Fogo!”. Larguei tudo e corri para a porta que dá para Washington Place".

A porta, porém, estava fechada. "As meninas se amontoavam atrás dela. Eles (os chefes) mantinham todas as portas fechadas a chave, o tempo todo, por medo de que as meninas roubassem alguma coisa. Algumas estavam gritando, outras esmurrando a porta com os punhos, outros tentando derrubá-la. Não posso descrever como me sentia enquanto estava lá (na rua) olhando. Eu podia ver as pessoas, mas não seus rostos. Esperávamos que as redes dos bombeiros pudessem salvar alguém, mas elas não eram boas o suficiente para alguém que saltava de tão alto", lembrou ela.

Apesar de concluir-se que o incêndio não foi provocado intencionalmente - provavelmente alguém jogou um fósforo mal-apagado em uma pilha de tecidos, que inflamou-se rapidamente - o grande saldo de mortes, associado à cenas dantescas de pessoas jogando-se em chamas do edifício, gerou comoção pública e motivou protestos com milhares de pessoas.

Os donos da Triangle, porém, não foram condenados pelo júri, uma vez que não foi possível determinar que a porta do nono andar (onde morreram a maioria das vítimas) estava trancada por ordem expressa do patronato.

Além do incêndio escancarar as péssimas condições de trabalho enfrentadas pelas jovens imigrantes, parte do choque pode ser explicado pelo fato de que, um ano antes do incêndio, foram as trabalhadoras têxteis da Triangle que deflagraram e lideraram um movimento grevista que durou 13 semanas, entre novembro de 1909 e fevereiro de 1910.

Conhecida como "O levante dos 30 mil", a paralisação no setor têxtil liderada por mulheres foi a mais importante realizada até aquele momento, um prenúncio da ebulição política do momento.

Maioria da força de trabalho do setor têxtil era feminina e imigrante

Há poucos meses, o Partido Socialista Americano havia passado a apoiar o direito das mulheres ao voto. Em 28 de fevereiro de 1909, as socialistas americanas estabeleceram o Woman's Day, a ser comemorado ao final de fevereiro.

No Woman's Day de 1910, cerca de 3 mil mulheres reuniram-se em protesto no Carnegie Hall, em Nova York. Entre elas, as grevistas das fábricas têxteis, que haviam encerrado a histórica paralisação poucos dias antes.

As mulheres socialistas e a Revolução Russa

A outra parte da história do Dia Internacional da Mulher iniciou-se em Copenhague, na Dinamarca, em agosto de 1910. Transcorria a Segunda Conferência internacional das mulheres socialistas quando Clara Zetkin propôs a criação de uma jornada anual de protestos em prol dos direitos das mulheres, mas sem fixar uma data específica. A primeira comemoração oficial deu-se em 19 de março de 1911.

No entanto, logo uma outra data em março tornaria-se ainda mais importante.

Em 8 de março de 1917 (ou 23 de fevereiro no calendário gregoriano), descreve a teórica marxista Alexandra Kollontai, as mulheres saíram corajosamente em protesto às ruas de Petrogrado (então São Petersburgo).
Eram também trabalhadoras do setor têxtil, além de mães e esposas de soldados deslocados para os esforços da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que, pressionadas pelos altos preços e pela escassez de comida, exigiam pão para os filhos e a volta dos soldados russos.

Nesse dia, conta Kollontai, até mesmo as forças de segurança do Czar titubearam diante do "mar turbulento da ira do povo". Para ela, as russas "ergueram a tocha da revolução e incendiaram todo o mundo". Foi o estopim do processo que culminaria na Revolução Russa. Além disso, as russas conquistaram o direito ao voto, as condições para o divórcio foram facilitadas e criou-se creches e refeitórios públicos para mitigar o peso do trabalho doméstico. A legalização do aborto, reivindicação presente até hoje em muitos países, foi obtida em 1920.

Após a vitória dos bolcheviques, a data foi incluída oficialmente no calendário soviético, mas ficou basicamente restrita aos países socialistas até 1975, quando, por sugestão da ONU, os protestos e comemorações pelos direitos das mulheres no mundo todo passaram a se concentrar no dia 8 de março.

por Tory Oliveira PUBLICADO NO SITE: CARTA CAPITAL

quarta-feira, 6 de março de 2019

A Revolução Pernambucana de 1817


A Revolução Pernambucana, também conhecida como Revolução dos Padres, foi um movimento emancipacionista que eclodiu em 6 de março de 1817 na então Capitania de Pernambuco, no Brasil.

Dentre as suas causas, destacam-se a influência das ideias iluministas propagadas pelas sociedades maçônicas, o absolutismo monárquico português e os enormes gastos da Família Real e seu séquito recém-chegados ao Brasil — o Governo de Pernambuco era obrigado a enviar para o Rio de Janeiro grandes somas de dinheiro para custear salários, comidas, roupas e festas da Corte, o que dificultava o enfrentamento de problemas locais (como a seca ocorrida em 1816) e ocasionava o atraso no pagamento dos soldados, gerando grande descontentamento no povo pernambucano e brasileiro.

Foi o único movimento separatista do período de dominação portuguesa que ultrapassou a fase conspiratória e atingiu o processo revolucionário de tomada do poder.

Contou com relativo apoio internacional: os Estados Unidos, que dois anos antes tinham instalado no Recife o seu primeiro Consulado no Brasil e no Hemisfério Sul devido às relações comerciais com Pernambuco, se mostraram favoráveis à revolução, bem como os ex-oficiais de Napoleão Bonaparte que pretendiam resgatar o seu líder do cativeiro em Santa Helena, levá-lo a Pernambuco e depois a Nova Orleans.

Antecedentes

No começo do século XIX, Pernambuco era a capitania mais rica do Brasil Colônia. Recife e Olinda, as duas maiores urbes pernambucanas, tinham juntas cerca de 40 mil habitantes (o Rio de Janeiro, capital da colônia, possuía 60 mil habitantes). O porto do Recife escoava grande parte da produção de açúcar — das centenas de engenhos da Zona da Mata, cujo litoral se estendia da foz do rio São Francisco até a vila de Goiana —, e de algodão. Além de sua importância econômica e política, os pernambucanos tinham participado de diversas lutas libertárias. A primeira e mais importante tinha sido a Insurreição Pernambucana, em 1645. Depois, na Guerra dos Mascates, foi aventada a possibilidade de proclamar a independência de Olinda.

As ideias liberais que entravam no Brasil junto com os viajantes estrangeiros e por meio de livros e de outras publicações, incentivavam o sentimento de revolta entre a elite pernambucana, que participava ativamente, desde o fim do século XVIII, de sociedades secretas, como as lojas maçônicas. Em Pernambuco as principais foram o Areópago de Itambé, a Patriotismo, a Restauração, a Pernambuco do Oriente e a Pernambuco do Ocidente, que serviam como locais de discussão e difusão das "infames ideias francesas". Nas sociedades secretas, reuniam-se intelectuais religiosos e militares, para elaborar planos para a revolução.

A fundação do Seminário de Olinda, filiado a ideias iluministas, deve ser levada em consideração. Não é por outro motivo que o levante ficaria conhecido como "revolução dos padres", dada a participação do clero católico. Frei Caneca tornar-se-ia um símbolo disso.
 
Causas imediatas

A bandeira da Revolução Pernambucana de 1817 inspirou a atual bandeira de Pernambuco. As três estrelas representavam Pernambuco, Paraíbae Rio Grande do Norte, e outras estrelas seriam inseridas ao passo que outras capitanias do Brasil aderissem oficialmente à confederação.
 
Presença maciça de portugueses na liderança do governo e na administração pública;
Criação de novos impostos por Dom João VI provocando a insatisfação da população pernambucana. Segundo escritor inglês então residente no Recife, era grande a insatisfação local ante a obrigatoriedade de se pagarem impostos para a manutenção da iluminação pública do Rio de Janeiro, enquanto no Recife era praticamente inexistente a dita iluminação;

Grande seca que havia atingido a região em 1816 acentuando a fome e a miséria e ocasionando uma queda na produção do açúcar e do algodão, produtos que eram a base da economia de Pernambuco e que começaram a sofrer concorrência do algodão nos Estados Unidos e do açúcar na Jamaica;

Influências externas com a divulgação das ideias liberais e iluministas, que estimularam as camadas populares de Pernambuco na organização do movimento de 1817;

A crescente pressão dos abolicionistas da Europa que vinha criando restrições gradativas ao tráfico de escravos, mão de obra que se tornava cada vez mais cara e que era o motor de toda a economia agrária pernambucana;

O movimento queria a Independência de Pernambuco sob um regime republicano.
 
O decorrer da revolução

A revolução iniciou-se com a ocupação do Recife, em 6 de março de 1817. No regimento de artilharia, o capitão José de Barros Lima, conhecido como "Leão Coroado", reagiu à voz de prisão e matou a golpes de espada o comandante Barbosa de Castro. Depois, na companhia de outros militares rebelados, tomou o quartel e ergueu trincheiras nas ruas vizinhas para impedir o avanço das tropas monarquistas. O governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro refugiou-se no Forte do Brum, mas, cercado, acabou se rendendo.

O movimento foi liderado por Domingos José Martins, com o apoio dos religiosos Padre João Ribeiro, Padre Miguelinho, Padre Roma, Vigário Tenório, Frei Caneca e mais Antônio Carlos de Andrada e Silva (irmão de José Bonifácio), José de Barros Lima, Domingos Teotônio Jorge, Manuel Correa de Araújo, Cruz Cabugá, José Luiz de Mendonça e Gervásio Pires, entre outros. Tendo conseguido dominar o Governo de Pernambuco, se apossaram do tesouro, instalaram um governo provisório e proclamaram a República.

Em 29 de março foi convocada uma assembleia constituinte, com representantes eleitos em todas as comarcas. Nela, foi estabelecida a separação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário; o catolicismo foi mantido como religião oficial — porém com liberdade de culto —; foi proclamada a liberdade de imprensa (uma grande novidade no Brasil); e foram abolidos alguns impostos.  
A escravidão, entretanto, foi mantida.

À medida que o calor das discussões e a revolta contra a opressão portuguesa aumentavam, crescia, também, o sentimento de patriotismo dos pernambucanos, ao ponto de passarem a usar nas missas a aguardente (em lugar do vinho) e a hóstia feita de mandioca (em lugar do trigo), como forma de marcar a sua identidade.
Expansão

As tentativas de obter apoio das capitanias vizinhas fracassaram. Na Bahia, o emissário da revolução, José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima, o Padre Roma, foi preso ao desembarcar e imediatamente fuzilado por ordem do governador, o conde dos Arcos. No Rio Grande do Norte, o movimento conseguiu a adesão do proprietário de um grande engenho de açúcar, André de Albuquerque Maranhão, que depois de prender o governador, José Inácio Borges, ocupou Natal e formou uma junta governativa, porém não despertou o interesse da população e foi tirado do poder em poucos dias. O jornalista Hipólito José da Costa foi convidado para o cargo de ministro plenipotenciário da nova república em Londres, mas recusou.

A tranquilidade da futura Vila Imperial dos Patos (atual cidade de Patos) foi quebrada pela efervescência da Revolução Pernambucana, que culminaria no movimento denominado Confederação do Equador. O vigário de Pombal, José Ferreira Nobre, assumiu a função de propagá-la em todo o Sertão da Paraíba. Como único caminho que ligava o interior ao mundo civilizado, Patos também se tornou rota dos revolucionários.

No Ceará, Bárbara de Alencar, pernambucana radicada no Cariri, e seu filho, Tristão Gonçalves, aderiram ao movimento, mas foram detidos pelo Capitão-mor do Crato, José Pereira Filgueiras, por ordem do governador cearense Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire. José Pereira Filgueiras participou mais tarde da luta pela Independência do Brasil no Maranhão e da Confederação do Equador, quando se uniu a Tristão Gonçalves contra o governo imperial, sendo considerado um de seus heróis.
 
Repressão

A repressão ao movimento foi sangrenta. Tropas portuguesas chefiadas por Luís do Rego Barreto avançaram pelo sertão de Pernambuco a partir do território baiano, enquanto uma força naval despachada do Rio de Janeiro bloqueou o porto do Recife. Em poucos dias 8 mil homens cercavam a capitania. No interior, a batalha decisiva foi travada na localidade de Ipojuca. Derrotados, os revolucionários tiveram de recuar em direção ao Recife. Em 19 de maio as tropas entraram na cidade e a encontraram abandonada e sem defesa. O governo provisório, isolado, se rendeu no dia seguinte.

Nove réus foram enforcados e quatro foram arcabuzados. Muitos deles tiveram seus corpos mutilados depois de mortos. O Padre João Ribeiro suicidou-se, mas o seu corpo foi desenterrado, esquartejado e sua cabeça exposta em praça pública. Um episódio que emocionou até os carrascos foi o de Vigário Tenório, que foi enforcado e decepado, teve as suas mãos cortadas e o corpo arrastado pelas ruas do Recife. Outras dezenas de revoltosos morreram na prisão.

Também em retaliação, foi desmembrada de Pernambuco, com sanção de João VI de Portugal, a Comarca das Alagoas, cujos proprietários rurais haviam se mantido fiéis à Coroa, e como recompensa, puderam formar uma capitania autônoma.

Apesar de os revolucionários terem ficado no poder menos de três meses, conseguiram abalar a confiança na construção do império americano sonhado por Dom João VI. A coroa nunca mais estaria segura de que seus súditos eram imunes à contaminação das ideias responsáveis pela subversão da antiga ordem na Europa.

Auxílio externo

Em maio de 1817, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cruz Cabugá, desembarcou na Filadélfia (Estados Unidos) com 800 mil dólares (atualizado ao câmbio de 2007 em aproximadamente 12 milhões de dólares) na bagagem com três missões:
Comprar armas para combater as tropas de Dom João VI;
Convencer o governo americano a apoiar a criação de uma república independente no Nordeste brasileiro;
Recrutar alguns antigos revolucionários franceses exilados em território americano para, com a ajuda deles, libertar Napoleão Bonaparte, exilado na Ilha de Santa Helena, que seria transportado ao Recife.

Porém na data de chegada do emissário aos Estados Unidos, os revolucionários pernambucanos já estavam sitiados pelas tropas monarquistas portuguesas e próximas da rendição. Quando chegaram ao Brasil os quatro veteranos de Napoleão recrutados conde Pontelécoulant, coronel Latapie, ordenança Artong e soldado Roulet, muito depois de terminada a revolução, foram presos antes de desembarcar.

Em relação ao governo americano, Cruz Cabugá chegou a se encontrar com o secretário de Estado, Richard Rush, mas somente conseguiu o compromisso de que, enquanto durasse a rebelião, os Estados Unidos autorizariam a entrada de navios pernambucanos em águas americanas e que também aceitariam dar asilo ou abrigo a eventuais refugiados, em caso de fracasso do movimento.
 
Data Magna

Em 2007, o dia 6 de março foi declarado a Data Magna de Pernambuco, em virtude da Revolução Pernambucana.

Em 2009, o Governo de Pernambuco aprovou outra lei, alterando a Data Magna do Estado para o primeiro domingo de março.

Em 2017, por ocasião do bicentenário da Revolução Pernambucana, o Governo de Pernambuco aprovou uma nova lei, alterando novamente a Data Magna do Estado para 6 de março e reinstituindo assim o dia como feriado civil.
 
 UM OUTRO OLHAR SOBRE A HISTÓRIA






DO LIVRO: AS LUTAS DO POVO BRASILEIRO...
De: Júlio José Chiavenato

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

12 LUGARES DE MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO NA ÁFRICA, CARIBE E BRASIL



Jacques Le Goff, no texto “Documento/Monumento”, lembra que a palavra latina monumentum remete à meminí (memória) e monere (fazer recordar). Assim, monumentum é um sinal do passado. 
É tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação: uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura, um monumento funerário ou um documento escrito. Trata-se de um legado à memória coletiva que detêm o poder de perpetuar a recordação do passado. 
Já a palavra latina documentum, derivada de docere (ensinar, daí o termo docente), evoluiu para o significado de “prova”. Mas ele está longe de ser imparcial, objetivo, inócuo. O documento resulta de uma produção/montagem, consciente ou inconsciente da história por uma determinada época e sociedade que o produziu; é um esforço das sociedades para impor, ao futuro, determinada imagem de si mesma. 
Documento é uma coisa que fica. É monumento. Por outro lado, considerando o sentido lato desses termos, há diferenças significativas entre eles quanto a visibilidade e acessibilidade. Enquanto o documento está guardado nos arquivos e bibliotecas para uso (às vezes, exclusivo) dos especialistas, o monumento – entendido como construção – é visitado pela população, fotografado, tocado, reproduzido como souvenirs para turistas. 
Enquanto construções, os monumentos são representações materiais que fortalecem uma determinada identidade social. Sendo, contudo, construções sociais, politicamente concebidos, os monumentos são portadores de ambiguidades: podem celebrar e glorificar o passado, ou contestar e denunciar esse mesmo passado. 
À luz dessas reflexões, listamos abaixo 11 lugares de memória da escravidão que incluem monumentos erguidos, no presente, com essa finalidade e construções históricas que, no passado, serviram para comércio escravo destinado às colônias europeias. Localizados na África e no Caribe, esses lugares contam uma história trágica cujos desdobramentos ainda se fazem sentir.

Lugares de memória da escravidão na África

1. Benin: Forte de São João de Ajudá

Conhecido como Costa dos Escravos, o litoral de Benin foi local de um ativo comércio escravo praticado pelos portugueses a partir de 1472. Ali eles construíram, por volta de 1580, a feitoria de Ajudá (Uidá ou Ouidah) que, em 1721, foi reconstruída e nomeada Forte de São João Batista de Ajudá. Por essa época, o tráfico de escravos era controlado por Francisco Félix de Souza (1754-1849), mulato brasileiro, nascido na Bahia, cuja fortuna e fama se tornaram lendárias e ainda hoje são lembradas pelos descendentes espalhados por Benin, Togo e Gana.

A região, então chamada de Daomé, tornou-se colônia francesa em 1892 mas o forte continuou sob controle português. Independente em 1960, quando passou a se chamar República Popular do Benin, o novo governo ordenou a invasão de Ajudá e a expulsão dos portugueses. Em 1965, foi feito o encerramento simbólico do forte e, pouco depois, suas dependências passaram a sediar o Museu Histórico de Ajudá. Em 1995, foi inaugurada pela Unesco, em Ajudá, um memorial em lembrança à deportação de milhões de cativos para as colônias em todo o Atlântico. 
Saindo do centro de Ajudá, a Rota do Escravo traça a jornada dos escravos até o porto onde foi erguido o Portal do Não Retorno, local da última parada dos escravos, a última visão da África. O portal, com cerca de 15 m de altura, tem, na parte superior do arco, figuras de homens nus, acorrentados, caminhando em direção ao mar. Ao lado do portal, esculturas em metal representam as famílias dos prisioneiros. Compondo o memorial, uma escultura em madeira simboliza a célebre Árvore do Esquecimento, uma árvore considerada mágica em torno da qual os cativos eram obrigados a dar voltas (nove, os homens; sete, as mulheres) para esquecer tudo – seus nomes, suas famílias e sua terra.

Forte de São João de Ajudá, atual Museu Histórico, Benin.

Portal do Não Retorno, voltado para o oceano, a última parada dos escravos, Benin.

A Árvore do Esquecimento, Benin

2. Gana: Castelo de São Jorge da Mina (Elmina) 
Construído pelos portugueses em 1482, no golfo da Guiné, o Castelo de São Jorge da Mina ou simplesmente Elmina serviu de entreposto de escravos que ali eram embarcados para a América. 
Em 1637, o castelo foi tomado pelos holandeses que continuaram usando-o com a mesma finalidade até 1814 quando aboliu o comércio de escravos. Em 1872, o forte passou para o controle britânico que o entregou ao governo de Gana na independência do país em 1957. 
O Elmina foi declarado Patrimônio Mundial, pela Unesco, em 1979. Utilizado como prisão, foi Inteiramente restaurado pelo governo de Gana na década de 1990.
 
Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, Senegal.
  3. Senegal: Casa dos Escravos 
Construída por volta de 1776, na ilha de Gorée, a 3 km da costa da cidade de Dakar, foi residência de Anne Pépin (1747-1837), mestiça de francês com senegalês, mulher rica e influente. 
A casa foi usada para o tráfico de escravos que, através da porta sem retorno, eram embarcados para a América. 
Declarada Patrimônio Mundial, pela Unesco, em 1978, a casa foi restaurada e transformada em um museu que tem recebido milhares de visitantes, inclusive de líderes mundiais, entre eles, Nelson Mandela (1998), o Papa João Paulo II (2007) e Barak Obama (2013).
 
Casa dos Escravos vendo-se ao fundo a “porta sem retorno”, Senegal.
 4. Serra Leoa: Castelo da Ilha Bunce 
Localizado em uma pequena ilha fluvial, o forte foi construído por ingleses por volta de 1670 para servir de entreposto de escravos que eram enviados para as colônias Carolina do Sul e Geórgia, no atual Estados Unidos. 
O local foi alvo de muitos ataques de traficantes de diferentes origens: portugueses, afroportugueses, holandeses e franceses. Os escravos de Serra Leoa eram valorizados por suas habilidades no cultivo de arroz, que era praticado na costa ocidental africana. 
Em 1807, com a abolição do tráfico de escravos pelo Parlamento britânico, a Ilha Bunce foi utilizada para outros fins: cultivo de algodão, entreposto comercial e serraria. Em 1840, a ilha foi abandonada e o castelo entrou em deterioração. 
Atualmente, o governo de Serra Leoa e instituições norte-americanas têm feito esforços para preservar a ilha e as ruínas do castelo.

Ruínas do castelo da ilha Bunce, Serra Leoa.
5. Zanzibar (Tanzânia): Memorial da Escravidão 
Zanzibar é uma paradisíaca ilha na costa da Tanzânia, na parte oriental da África, banhada pelo oceano Índico. Atualmente é rota do turismo de luxo dispondo de resorts magníficos em suas areias brancas e águas cristalinas. 
Mas por sete séculos, Zanzibar foi um importante entreposto de escravos controlado pelos muçulmanos que, desde o século XII, dominavam a ilha. Os escravos eram capturados no interior do continente e, acorrentados, caminhavam mais de 1300 km até Cidade da Pedra, em Zanzibar. Eram vendidos principalmente para o Iêmen, Seychelles e Madagáscar. 
O comércio de escravos e marfim enriqueceu os comerciantes árabes do arquipélago. Entre eles, destacou-se Hamed bin Mohammed bin Juma bin Rajab el Murjebi, mais conhecido como Tippu Tip (1837 – 1905) que chegou a ter mais de 10 mil escravos além de diversas plantações em Zanzibar. Sua casa foi um dos edifícios mais ricos da ilha; hoje, bastante danificada, está dividida em apartamentos onde moram muitas famílias. 
Após o fim do comércio escravo, em 1873, no lugar do antigo mercado de escravos foi erguida a Catedral Anglicana. Em seu subsolo ainda estão as 15 celas onde ficavam amontoados 50 a 75 escravos aguardando o embarque. Duas delas são acessíveis aos turistas. 
Em 1998, foi construído, do lado de fora da catedral, o Memorial da Escravidão. Trata-se de um fosso com cinco esculturas de escravos em seu interior. Eles estão acorrentados uns aos outros pelo pescoço. A corrente é original, usada no século XIX no comércio de escravos. 
Em 2000, a Cidade de Pedra de Zanzibar foi declarada patrimônio mundial pela Unesco



Memorial da Escravidão, Cidade da Pedra, Zanzibar.

Cela onde ficavam os escravos, Cidade da Pedra, Zanzibar.

Tippu Tip, poderoso comerciante de escravos de Zanzibar, no séc. XIX.

Fachada da residência que pertenceu a Tippu Tip, em Zanzibar.
Lugares de memória da escravidão no Caribe 
6. Barbados: Estátua da Abolição ou de Bussa 
A pequena ilha de Barbados, na América Central, era originalmente habitada por indígenas Arawak. Porém, quando da chegada dos espanhóis, em 1492, estava desabitada. 
Foi colônia inglesa entre 1627 e 1966, ano de sua independência política. Tabaco e algodão foram as primeiras culturas exploradas na colônia, substituídas, a partir de 1640, por cana de açúcar com mão de obra africana escravizada. 
Em 1816, ocorreu uma violenta revolta escrava liderada pelo escravo de nome Bussa. Cerca de 400 escravos se levantaram incendiando fazendas e tomando as propriedades. Depois de três dias, os ingleses conseguiram sufocar a revolta. Cerca de 115 escravos foram executados e dezenas foram levados para outras ilhas. 
Em 1834, a escravidão foi abolida no Império Britânico. Os ex-escravos, contudo, tiveram que indenizar seus antigos proprietários continuando a trabalhar por mais 4 anos, sem remuneração, em uma jornada de 45 horas semanais. Em 1838, finalmente, cerca de 70 mil barbadianos de ascendência africana comemoraram a liberdade. 
A Estátua da Abolição celebra esse fato mas, o povo barbadiano deu outro significado ao monumento: refere-se a ele como Bussa, nome do herói nacional.
7. Curaçao: “Desenkadená” ou Estátua de Tula 
Localizada no sul do mar das Caraíbas, ao largo da costa da Venezuela, a ilha foi habitada por tribos de caiquetios, da família Arawak que foram expulsos quando da ocupação espanhola no século XVI. 
Em 1621 começaram a chegar os holandeses e, em 1634, a ilha passou para o controle da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC). A Companhia estava à procura de fontes de sal e encontrou boas salinas em Curaçao, Bonaire e na costa da Venezuela.
Após a perda do nordeste brasileiro, em 1654, cresceu a importância de Curaçao. Para lá foram levadas mudas de cana de açúcar e, a partir de 1665, africanos escravizados tornando-se uma das ilhas mais prósperas do Caribe. 
Em agosto de 1795, ocorreu a revolta escrava liderada pelo escravos Tula, Bazjan Karpata e Salika entre outros. Durante um mês, centenas de escravos organizaram guerrilhas contra holandeses até que Tula foi capturado e executado em outubro daquele ano. 
No local do suplício, foi erguido, em 1998, o monumento Desenkadená (“Quebrando as correntes”) do escultor curaçoense Nel Simon. 
Para a população local é a Estátua de Tula, identificado como a figura central que golpeia as correntes dos outros dois líderes da maior rebelião escrava de Curaçao.
Desenkadená ou Estátua de Tula, Curaçao.
8. Haiti: “Negro Marrom” 
O Haiti foi palco da maior revolta escrava da América. Sob controle da França desde 1697, com o nome de São Domingos, era uma rica colônia produtora de cana de açúcar com mão de obra escrava. 
A partir de 1791, ocorreram uma série de revoltas inspiradas pela Revolução Francesa e que culminaram com a tomada do poder pelos ex-escravos num episódio que chocou a Europa e os senhores brancos da América. 
Em 1804, foi conquistada a independência e adotado o nome de República do Haiti. Mas o mundo virou as costas à “república de negros”. 
O monumento Negro Marrom (“Neg Mawon”, em crioulo haitiano), muitas vezes chamado de Escravo desconhecido foi criado pelo escultor haitiano Albert Mangones em 1969, por encomenda do governo Duvalier, em comemoração à revolta escrava e independência do país. 
A figura usa uma concha como trombeta para convocar os negros à luta. A perna esquerda estendida tem correntes quebradas e a mão direita segura um facão. 
A escultura foi colocada na avenida “Champ de Mars”, na capital Port-au-Prince, com o palácio presidencial ao fundo. A foto é anterior ao grande terremoto de 2010 que devastou o país e destruiu o palácio. A escultura, contudo, não foi afetada.

Negro Marrom, Haiti.

9. Jamaica: “Canção da Redenção”

A Jamaica é a terceira maior ilha das Grandes Antilhas, no mar do Caribe. O nome do país vem de Xamayca, “terra de madeira e água”, palavra de origem Arawak, língua dos primeiros habitantes. 
 
Dominados pelos espanhóis a partir de 1494, os arawaks foram escravizados e rapidamente exterminados. Atacada e saqueada por piratas franceses e ingleses acabou por se tornar colônia britânica em 1670. 
 
Os ingleses incrementaram o tráfico de escravos para as plantações canavieiras da ilha. A revolução haitiana (1791-1804) deu vantagem à Jamaica que se tornou o maior exportador mundial de açúcar, em 1810. 
 
Por essa época, a população de escravos chegava a 350 mil pessoas em uma proporção de 20 negros para cada branco. A abolição do tráfico negreiro pela Inglaterra, em 1807, levou os proprietários a maior vigilância e controle contra as fugas de escravos. 
 
Aumentaram as revoltas escravas, a maior delas em dezembro de 1831 que matou cerca de 60.000 escravos além de incalculáveis perdas materiais. A grande revolta de 1831 fortaleceu o movimento abolicionista contribuindo para o fim da escravidão em todo Império Britânico em 1834. 
 
O monumento Canção da Redenção, da artista jamaicana Laura Facey, mostra um casal negro nu, em bronze, 3 m de altura, olhando para o alto representando sua ascensão triunfal aos horrores da escravidão. A base da escultura é uma fonte cuja água brota do centro e cai suavemente sobre a superfície curva. 
 
A artista afirma ter-se inspirado nas palavras do herói nacional Marcus Garvey – “ninguém, somente nós mesmos podemos libertar nossas mentes” – presentes, também, na letra de Redemption Song, de Bob Marley, famoso cantor de reggae da Jamaica.

Canção da Redenção, Jamaica.

10. Martinica: “Cap 110 Memória e Fraternidade” 
 
A ocupação francesa em 1635 e a entrada maciça de escravos a partir de 1670 acabou por exterminar a população nativa de Arawak da ilha. 
 
Nos três séculos seguintes (XVII ao XX), o cultivo de cana-de-açúcar foi predominante e, por longo tempo, feito com mão de obra escrava africana. No início do século XIX, a população escrava era maioria chegando a representar 60% do total de habitantes na ilha. O restante, estava distribuído em 32% de libertos e 8% de brancos. 
 
Com a abolição da escravidão, em 1848, os grandes fazendeiros passaram a importar mão de obra da Índia (Madras e Calcutá) e China (Xangai e Cantão). 
 
O memorial Cap 110 Memória e Fraternidade, do escultor martinicano Laurent Valére, foi esculpido em 1998 em comemoração ao 150º aniversário da abolição. Lembra um episódio trágico ocorrido na noite de 9 de abril de 1830, quando um navio transportando ilegalmente africanos escravizados naufragou na costa rochosa da ilha. No dia seguinte, foram encontrados, entre os destroços, os corpos de 46 negros. Nunca se soube o número exato de mortos e sequer o nome do navio e de seu comandante. 
 
Cap 110 Memória e Fraternidade, Martinica.
 

O memorial foi instalado no local onde ocorreu o naufrágio, em Anse Cafard. Composto por 20 figuras grandes, com 2,5 m de altura, elas têm os ombros curvados e cabeças inclinadas, e olham para o mar em direção ao Golfo da Guiné, de onde possivelmente, vieram as vítimas do naufrágio. O conjunto tem a forma triangular representando o comércio triangular realizado pelos colonizadores. A cor branca marca o luto que, na África Ocidental, era simbolizado pela cor branca.
11. Granada: Parque submarino na Baía de Moilinere 
 
País insular caribenho ao norte da costa da Venezuela, foi ocupado pelos franceses entre 1650 e 1762 que ali desenvolveram o cultivo de cana de açúcar com mão de obra escrava africana. 
 
A colônia foi disputada pelos ingleses passando definitivamente para a coroa britânica em 1783, pelo Tratado de Versalhes. 
 
Em 1795 ocorreu a rebelião de escravos liderada pelo mestiço Julie Fedon, um martinicano filho de francês com uma escrava. Influenciado pelas ideias iluministas e pela revolução haitiana, Julie Fedon proclamou o fim da escravidão e a conversão dos escravos em cidadãos. Ordenou a expulsão dos ingleses e entregou o governo da colônia à França. 
 
Os britânicos reagiram e no final de 1796, conseguiram sufocar a revolta escrava matando cerca de 7000 escravos. Julie Fedon não foi capturado e nunca se soube do seu destino. 
 
Pouco anos depois, em 1807, o Parlamento britânico decretou o fim do tráfico negreiro. A perseguição da marinha britânica aos navios negreiros foi dramática aos escravos que estavam a bordo: o capitão ordenava que fossem atirados ao mar para não ter o navio apreendido. 
 
Em lembrança a tragédia de milhares de africanos afogados, o escultor britânico Jason de Caires Taylor criou, em 2006, o Parque submarino na Baía de Moilinere, em Granada. 
 
Círculo de crianças, Parque Submarino na Baía de Moilinere, Granada.
 
São mais de sessenta esculturas individuais, feitas de concreto, fixadas no leito do oceano e cobrindo uma área de mais de 800 metros quadrados. Uma das mais conhecidas é o grupo de 26 crianças em pé, segurando as mãos, e voltadas para fora da roda.




12. Rio de Janeiro, Brasil: Cais do Valongo 
 
Descoberto em 2011, durante as obras na zona portuária do Rio de Janeiro, trata-se do único vestígio material conhecido de desembarque dos africanos escravizados nas Américas. 
 
Foram descobertos dois ancoradouros – Valongo e Imperatriz -, um sobre o outro e, junto a eles, uma grande quantidade de amuletos e objetos de culto originários do Congo, Angola e Moçambique. 
 
Construído em 1811, o Valongo foi local de desembarque e comércio de escravizados africanos até 1831 quando foi proibido o tráfico transatlântico de escravos. 
 
Durante os vinte anos de sua operação, estima-se que ali desembarcaram entre 500 mil e 1 milhão de escravizados. 
 
O sítio arqueológico Cais do Valongo foi declarado patrimônio da humanidade da Unesco, em 2017.
 
Cais do Valongo, Rio de Janeiro, considerado o maior porto de escravizados das Américas do século XIX.
 
Fonte 
 
LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e Memória. Campinas, SP: Editora Unicamp, 1994. EHRENGARDT, Thibault. Histoire de la Jamaïque. Jamaica: Insula, 2015. Práticas de memória, patrimônio e ensino de história. Revista História Hoje. Anpuh-Brasil, v.3, n.6, agosto 2013 a julho 2015. Sierra Leone seeks to move into “slave tourism”. BBC News. Museu Histórico de Ajudá. Site oficial. USI (Understanding slavery initiative). Portal com artigos e imagens referentes à escravidão. A construção do Monumento de Tula, em Curaçao, por Nel Simon, em 1996-1997. Vídeo. Jason deCaires Taylor e suas esculturas submarinas. Site oficial.